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O jeitinho brasileiro não funciona fora do Brasil

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O famoso jeitinho brasileiro está instaurado na sociedade de um forma que não percebemos mais. Ele pode ser definido como tentar tirar vantagem de tudo e de todos em qualquer situação possível.

O jeitinho brasileiro é furar a fila do banco quando ninguém está olhando, é pegar uma caneta de um escritório ou imprimir a redação pra aula no trabalho porque na faculdade precisa pagar.

O mais impressionante é que o jeitinho brasileiro funciona, em todos os níveis da sociedade. Mas funciona só no Brasil.

Eu moro fora do Brasil há 10 anos, em dois países completamente diferentes: China e Alemanha. Nestes países, eu convivi (e ainda convivo) com muitos brasileiros. Conheci muitas pessoas que trabalham duro para conseguir levar a vida em um país diferente. Mas também conheci muitos que tentam tirar vantagem, ou seja, aplicar o jeitinho brasileiro em quaisquer situações. E posso repetir com todas as palavras: o jeitinho brasileiro não funciona fora do Brasil.

Me lembro o que meu pai me falou na nossa primeira semana morando na China. “Você está em um país que não é teu. Aqui existem regras e leis e elas existem para serem cumpridas. Se você sair da linha, pode sofrer consequências horríveis.”

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Claro, pequenas situações como as que foram mencionadas acima não são tão problemáticas e podem passar despercebidas por uma pessoa que não está familiarizada com os costumes brasileiros de “tirar vantagem”. Mas outras são bem perceptíveis até mesmo a olho nu.

Venho percebendo nos últimos dois meses acontecimentos que me deixaram, no mínimo, perplexa.

Enquanto passava pelos grupos de brasileiros no Facebook, me deparei com uma mensagem interessante: uma mulher pedia dicas de como sair da Alemanha e ir pra Portugal sem ser pega pela polícia, já que ela estava ilegal no país. Pensei que pela quantidade de comentários, pessoas falariam para a moça fazer a coisa prudente e tentar se legalizar para ficar na União Europeia. Para o meu espanto, as pessoas não apenas respondiam com dicas concretas de como ir de um país para outro sem ser pego pela polícia, mas também estavam dando dicas totalmente ilegais. Aqueles que apontaram a criminalidade da situação foram recebidos com comentários defensivos e até mesmo violentos.

Postagem no Facebook
Mulher pede ajuda ilegal em grupo de Facebook (Screenshot)

A Alemanha, como bem sabemos, é um país cheio de burocracias. Na nossa perspectiva brasileira, pode ser recebido muitas vezes como algo desnecessário. Entendo que as vezes, ficar em um país estrangeiro pode ser difícil. Não é possível conhecer a história de vida de todos. Entretanto, é necessário entender que muitos que vão pra outro país, passam por dificuldades imensas pra manterem-se legais.

Como é o caso de uma amiga minha. Ela precisa ir todo o mês no Ausländerbehörde para provar que ela tem dinheiro para estudar e morar na Alemanha. Ela se vira em 10 pra estudar e ir bem na faculdade, trabalhar pra ter dinheiro e ficar na Alemanha de maneira legal. Ela nunca pediu ajuda pra ninguém, e nunca passou pela cabeça dela ficar aqui de forma ilegal.

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Burlar as regras de um país para conseguir encaixar-se na sociedade pode ser possível no Brasil, onde não há consequências para o jeitinho brasileiro. Mas fora dele, as consequências podem ser drásticas e até mesmo irreversíveis.

É sabido que na China a tolerância para o consumo e/ou venda de qualquer tipo de droga é zero. Mesmo assim, conheço muitas pessoas que simplesmente ignoram este fato e consumem regularmente entorpecentes. Infelizmente, esta situação chegou a um ponto extremo e um brasileiro foi deportado do país. Outro brasileiro está preso na China por desvio de dinheiro.

Muitos pensam que nunca sentirão as repercussões de seus atos ilegais em países estrangeiros, seja por falta de tato com a realidade ou pensarem que estão acima da lei.

Não me isento de ter malandramente aplicado uma vez ou outra o jeitinho brasileiro em situações “inocentes”. Eu, como uma cidadã consciente, tenho total discernimento dos meus direitos e deveres dentro da sociedade, seja ela brasileira, alemã ou chinesa. Nisso, devo muito ao meu pai.

Uma coisa é certa: Não importa onde estamos no planeta, nós, como brasileiros, somos obrigados a apresentar a nossa melhor imagem. Mas mais que isso, somos obrigados, como seres humanos, a respeitar o próximo e suas leis.

A Brazilian girl that used to live in China, who is now studying American Studies in Leipzig and interning for LeipGlo. Has an interest in everything and anything, especially unconventional life stories. Here she will share her view of the world, encounters, and opinions

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